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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008 



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DJ - O "Ser DJ"

Aqui falo um pouco sobre a profissão do DJ. Antes de tudo, importante notar que não sou DJ profissional, este é apenas um hobby que cultivo por gostar muito de música eletrônica e ter contato constante com alguns DJs, aqui em São Paulo e em outros estados. Tudo que citarei aqui foi baseado nesta convivência, principalmente com o DJ Ronaldinho, o meu principal amigo neste meio.

Mesmo não sendo profissional, este texto vem como sendo um "desabafo" sobre a profissão, que pude sentir pelo convívio. A situação do "ser DJ" atualmente é muito parecida com o da minha profissão oficial, a situação de "ser técnico em informática". E começo assim: se você sabe sobre Windows, sabe usar Word, ou até algo mais "avançado" como criar uma conexão discada via modem, você não é técnico em informática, apenas sabe algumas coisas mas não a ponto de usar esta conotação "profissional" para se designar. Já vi caras considerando-se "técnico em informática", que fazem pose de tal, vão instalar um programinha de Internet e não sabem o que significa "firewall". Absurdo, antes de tudo. Isso é o mais básico que um técnico de verdade poderia saber. Então, eu que sou técnico, se falar algo como "pacote Syn de negociação de protocolo TCP/IP" ou estou brincando ou inventando? Não, isso eu sei porque eu sou técnico, de verdade. Todo mundo virou "técnico em informática". E isso faz com que banalize a profissão, que muitos dependem para viver.

O que acontece com o "mundo DJ" é a mesma coisa. Todo mundo, principalmente quem frequenta baladas, virou "DJ". Parece às vezes que pelo simples fato de ouvir música eletrônica, o cara já é um DJ. Absurdo, igualmente. DJ é uma profissão como qualquer outra, tanto quanto técnico em informática. E estou convencido que não é qualquer pessoa, mesmo que goste de dance, techno, que poderia ser DJ. Pelo menos um bom DJ.

Vamos tentar definir o DJ de verdade? É um profissional da área de música, que tem os conhecimentos necessários para fazer uma festa, que estuda música, que investe na busca de lançamentos e tem o interesse contínuo, diário, de se aperfeiçoar em suas técnicas. E quem não é um DJ? Não é DJ aquele cara que ouve rádio de música eletrônica e fala "você ouviu a nova música do DJ Shamblous?", ou aquele cara que mesmo não sabendo diferenciar dance de techno ou então, como já vi acontecendo, dizer "queria aprender a mixar, qual a diferença entre CD e vinil? Assinado: DJ Joãozinho". Como alguém pode colocar "DJ" na frente se nem sabe uma diferença tão óbvia? Imagina então a parte matemática da coisa toda, pois mixagem envolve uma matemática exata em sua funcionalidade. Mas como eu disse antes, mesmo sabendo essa matemática, não é suficiente para ser DJ.

O que falo sempre, que bolei um dia para falar sobre o "ser DJ" e tentar explicar o motivo que as pessoas não devem se auto-denominar DJs, merece até um parágrafo exclusivo: imagine que você está com um amigo, fazendo alguma atividade manual, com um estilete, por exemplo. De repente, seu amigo corta o dedo, superficialmente e sangra um pouco. Você, para ajudá-lo, vai ao banheiro, pega um "kit de primeiros socorros", com band-aid, gaze, água oxigenada, etc. Limpa com a água a área machucada, retira todo o sangue, seca e põe um band-aid. Pronto, o curativo está feito e o corte protegido. A partir deste momento, você se auto-denominará "Dr. Seu Nome"? Não, óbvio que não. Você fez algo simples, dentro da área da medicina, concordo, mas não a este ponto. Então porque o pessoal tende a dizer que são DJs por simplesmente ouvir música eletrônica ou, pensando em um caso mais avançado, apenas ter tocado musiquinhas em uma festa de um amigo no salão do prédio? Isso não é ser DJ, da mesma forma que fazer curativo não é ser médico.

A profissão envolve muitas coisas, como citarei: DJ também é aquele que sabe olhar para uma pista cheia de pessoas e sentir o clima, quais músicas iriam manter o pessoal em clima de festa, de descontração. É o cara que tem o ouvido preparado para equalizar a saída, perceber quando há algo errado, estar atento e pensando única e exclusivamente na diversão dos outros. Como diz meu amigo Ronaldo: DJ é igual a prostituta: ele trabalha enquanto os outros se divertem. DJ é o cara que trabalha de madrugada, até altas horas, de final de semana, de dia de semana, a qualquer hora. Um DJ de verdade não está em uma festa para se divertir, não esta ali para "pegar a mulherada e beijar todas", já que o DJ é visto como o ápice da festa, ele que comanda tudo, quase um Deus. É fácil perceber se um DJ é profissional ou não. Se é um cara que fica procurando "qual mulher ele vai traçar" e a música e o ambiente são secundários, este é o mal DJ, que estraga a profissão. DJ é um profissional e somente deveria receber estas duas letras na frente do seu nome se tivesse a real consciência do que isso significa.

Eu particularmente evito me chamar de DJ. Afinal, como eu disse, minha profissão oficial é ser técnico em informática (de verdade). Na maioria das vezes, quando apresento um set que mixei, me apresento apenas como Arvy. Mas, por ter conhecimento das técnicas, pelo menos sonoramente falando, e dependendo do local onde um set meu será apresentado, vejo que uma coisa puxa a outra e neste caso o uso da denominação "DJ" é aceitável. Mas não me apresento aos meus amigos como DJ Arvy ou DJ Rogério. Nem mesmo aos meus amigos dentro desse próprio meio. No meu ICQ ou MSN não está escrito "DJ" na frente do meu apelido. Afirmo novamente: adoro música eletrônica, é meu hobby mixar e aprender mais sobre isso, conhecer novas músicas, lançamentos e novidades. Mas é apenas um hobby, não posso pensar nisto como algo profissional.

Concluindo: se você gosta muito deste mundo, acha que poderia fazer isso uma maneira de trabalhar profissionalmente e se identifica com o que eu disse acima, se você realmente gostaria de ser DJ, faça um curso, ou dois, ou três, aperfeiçoe-se todos os dias, aprenda as técnicas, estude muito, ouça muita música, de forma crítica e não apenas por ouvir, leia a respeito, compre CDs, compre revistas, visite sites, converse com outros DJs mais experientes, dê o sangue para fazer aquilo ser profissional. E seja humilde, antes de tudo. Você nunca saberá tudo e sempre existirá alguém que saberá mais do que você. Não se envergonhe em dizer que não sabe, ao contrário, esforce-se para aprender coisas novas. E isso que eu disse não se aplica apenas ao "ser DJ" e sim para tudo na vida.

Arvy.com.br ::: 2000-2008 Rogério Vitiello